30 de mai. de 2008

Duas

A menina cresceu ao lado do pai. Queria ser o filho do pai. Não porque faltasse um filho, mas porque gostava. Quis jogar futebol, treinar artes marciais. Fez vôlei, tênis e natação. Aprendeu a arrumar o ferro de passar quando quebrava, a mexer na eletricidade da casa, a organizar e fazer contas no fim do mês. É forte e decidida, e tem certo prazer escondido em dizer que "carrega a família nas costas", o que, obviamente, é bem pouco verdade. É feminista, às vezes, de um jeito machista. Consegue esquecer, deixar para trás, sentir pouco. Consegue ser completamente racional e assim resolve seus problemas. Nem tudo, afinal, é questão de sentimento.

A menina cresceu ao lado da mãe. Mas não vivia para agradá-la. Sempre encontrou em si uma "veia artística", uma feminilidade inexplicável. Ela aprendeu a dançar balé e dança de salão. Sabe tricotar, tocar violão, e desenha. Faz bonecos de biscuit. Gosta de roupa e maquiagem, de se sentir bonita por fora. Escreve sobre sentimentos, quando eles deixam de caber lá dentro. Tem a coleção completa dos contos de fada da Shelley Duvall, e uns cinco livros sobre histórias de príncipes. Adora comédias românticas - chora em qualquer uma. No fundo, ela queria enxergar da janela o cavalo branco dobrando a esquina. Para não precisar mais se preocupar com nada.

Qual Kelly você conhece?

26 de mai. de 2008

C'est fini

(No que depender de mim), a última postagem musical de desencontro. Nada mais que um protesto, quase mudo. Nem precisamos mais falar disso. A série de pensamentos conclusivos saíram da set list de domingo, na Gambiarra, e é super explicíta: comece com Never There, do Cake, pense um pouco sobre Deixa a Menina, de Chico Buarque e termine com Boa Sorte, de Vanessa da Mata.

O roubo

Levaram da minha bolsa o dinheiro, os cartões, os cheques, o vale transporte. Nem liguei, que engraçado. Voltei pra casa vendo o céu que estava vermelho, o sol se pondo tão lindo. E daí, se existe esse sol? E daí, se dá pra bloquear tudo por causa desse lado maravilhoso da modernidade? E daí, se eu vou sair pra dançar assim mesmo?
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Como será que eu reagiria se o dia estivesse nublado?