22 de mar. de 2008

Post digressivo



Dusk is nature´s lullaby

Linda conclusão em Cymbeline, da Kneehigh Theatre. (Será que eles assistiram a Ensaio.Hamlet, da Cia dos Atores?). Quer entender a essência de Shakespeare? Lá está.

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Eu sou desesperadamente apaixonada pelos textos. Pela sonoridade das palavras e suas possibilidades de significado. Mas, no final, o que importa no teatro? Não será uma mensagem compreensível?

Me pergunto quais palavras Shakespeare escolheria para escrever suas peças hoje.

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Não conhecia Cymbeline. A história é bonita, mas soa um pouco repetitiva. O destino. Sempre o destino de reis e amantes. Agora, quem diria? Não é que o final é feliz?

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E, por fim. Ninguém merece "o pequeno poder" em ação na porta do Sesi. A peça começa às 20h. Tente chegar 19h57 para ver a doçura e simpatia dos seguranças na porta. Eu sou foda, eu fecho a porta na sua cara. E você que implore minha benevolência para entrar.

19 de mar. de 2008

Figuras

A melhor parte de andar de ônibus em São Paulo é escutar outras pessoas conversando ao celular. Apesar de ser um costume extremamente incoveniente e abusivo (será que é necessário gritar tanto pra se fazer entender?), produz as mais maravilhosas pérolas.

Cena 1: De bem com a vida

Ônibus Praça da Sé, na altura do parque Ibirapuera. O tempo está frio e nublado, parece que vai chover. São 18h. O homem sentado ao meu lado tem cabelo encaracolado que cai sobre os olhos, usa bigode e se veste como um cantor de pagode. É protuberante a barriga de cerveja, mas, fora ela, é um rapaz até longilíneo. Ele diz para a provável namorada:

- Ai anjo, estou aqui nessa maravilha de cidade. Não sei por que dizem que São Paulo é cinza. Na verdade, é uma cidade linda [olha o parque sob o céu nublado], cheia de verde.
-...
- Agora? Estou virando na avenida [lê a placa] Brigadeiro-Luis-Antônio. Sabe qual é? Enorme, linda. Precisa ver, anjo.
-...
- Não, não se preocupa. Estou chegando. Tá um poquinho de trânsito, um pouco só. Logo eu desço no metrô, vou até a estação e pego o ônibus pra Jundiaí. Tô aí o quê? Até a hora da novela?
-...
- Já falei, anjo. Fica calma. Eu tô indo te comer. Eu vou te comer, certeza. Não esquenta. É que tá trânsito, demora um pouco. Quer vir me buscar?

Desço rindo, na esquina da Paulista. O homem desce atrás, super sério, pra pegar o metrô.

Cena 2: De mal com o mundo

Ônibus Vila das Mercês, que aguarda a hora de sair em uma travessa perto do metrô Santa Cruz. São 22h. Uma moça de cabelo ruivo mal tingido senta duas cadeiras atrás da minha, bufando. Usa batom rosa, calça jeans muito justa para os quilinhos a mais, pulseiras e colares. Grita ao celular com a mãe, que não tem tempo de responder:

- Alô, mãe? Puta que pariu, mãe! Eu não aguento mais. O filho da puta do Zé me ligou de novo. Ele é um bosta. Me ligou de novo já sabendo tudo que eu ia responder. Só pra encher meu saco, aposto. Me deu até dor de cabeça. Daí meu celular bloqueou, de tanto que eu falei. Não consigo mais colocar crédito. E não sei o telefone da Vivo. Você sabe? O pai não sabe, outro bosta. Liguei pra pedir. O cara tem celular da Vivo há quantos anos e não sabe o número da Vivo? Me deu até tontura. Agora tô com tontura e dor de cabeça. Pra completar, na empresa, eu peguei a pior folga, no meio da semana. Quer dizer: todo mundo folga no fim de semana e só a Aline que se fode, é claro. E todo mundo soube por telefone, eu tive que ir assinar. Além do que passei o dia atendendo só problema. Cada problema que você não acredita. Não aguento mais. E essa merda de ônibus não anda, ainda por cima. Olha a hora que eu saí, quando eu vou chegar em casa?

Desço. Um homem desce atrás de mim, reclamando.
- Puta que pariu, que mulher chata!

17 de mar. de 2008

Felicidade é...

... tocar para o mar e rolar em papéis coloridos pelo chão.


Elephant Gun - Beirut

p.s Obrigada, mocinho!

16 de mar. de 2008

Mordomia

Eu costumo não ligar para hotéis. Não são questão essencial na minha lista de exigências para viajar. Já que não tenho muito dinheiro, mas tenho "espírito de aventura", uma pousada, um albergue ou um quarto emprestado costumam cair bem quando circulo por aí do meu bolso. Sempre penso que é melhor conhecer o lugar que o hotel.

Obviamente, minha lista de exigências muda quando viajo a trabalho. É legal, mas é chato. Você só tem algumas horas livres. Não costuma sobrar tempo (ou energia) suficientes para um mero city tour. Assim, fui três vezes para Salvador e não conheço o Pelourinho. Conheço profundamente, isso sim, os quartos de hotel onde fiquei, o chuveiro, a TV a cabo, a piscina, no máximo. O hotel é essencial nessas viagens.

E então entendi que bonita é a profissão da minha irmã, hotelaria. Já que você não vai ver a cidade, chegar perto das praias, encher a cara nos bares, sinta-se em casa. Os hotéis têm uma incrível capacidade de prever o que você precisa.

A escova, a pasta de dente, o xampú. Às vezes secador, outras ferro de passar, outras ainda, banheira. Batata Pringles para quando dá fome no meio da noite. Água de cortesia ao lado da cama. Internet sem-fio. Muitos canais de televisão. Ótimos prêmios de consolação.
Dependendo da cidade, você nem sente falta do resto.