
Ana entrou na sala e foi olhada. Foi olhada durante todo o (pouco) tempo que permaneceu lá. Era um petit comitê do embaixador. Garçons, garçonetes, quibes e vinho barato. Ana não estava na lista de convidados. Ela foi com Arthur: quinze anos mais velho, espirituoso, insistente.
Ana sempre acabava saindo com os insistentes espirituosos, mesmo que ao final se despedisse com um beijo no rosto. Mas naquela sala tão clara (por que não receber à meia-luz, por que não deixar as pessoas à vontade?) as pessoas olhavam mal para Ana. “Olha quem o Arthur está comendo agora”, dizia um olho. “Vagabundinha...”, acusava outro.
Alguns tinham dó de Ana. Coitada, foi parar na mão dele. Outros não gostavam dela, abusada. Ao final dos cumprimentos, Ana encontrou uma ex-colega de trabalho. Ou melhor, encontrou uma analista da época em que era estagiária. O olhar dela doeu. “Acabou virando carreirista”, apontou, demonstrando certa decepção. Ana quis fugir e fugiu. Até de Arthur.
29 de jan. de 2008
Ana vê
Postado por Kel às 20:58